sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Estavam ali os dois havia muito tempo, meia hora, talvez, não sabia ao certo.
A cerveja quente no copo sujo diante de si, o calor insuportável,
o nó na garganta, ou mau cheiro lhe revirando o estômago
e aquele silêncio ensurdecedor formando uma barreira entre os eles.
Queria olhar fundo nos olhos castanhos dela e dizer que não podia mais,
que não queria, que sentia muito, que precisava sair daquilo,
que até já tinha comprado passagem pra Minas, ia dia 13, poltrona 26,
queria desesperadamente dizer que preferia mil vezes passar dias sacolejando num ônibus
que o levasse pra longe, que ficar mais cinco minutos suportanto aquela vida miserável ao lado dela...

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Quero

Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Vida breve... E você aqui do meu lado...
Cá dentro uma vontade doida (e por pouco quase doída) de, num abraço,
pousar minha mão nas tuas costas e deixá-la repousar por lá,
como se fosse sua cama, sua casa...
Não me movo, mal te olho, mas ao menor gesto teu volto para ti minha corola, girassol que sou.
Não posso dizer nada, é perigoso, mas me ilumino pra te ver, me ilumino por te ver;
E você, de algum modo misterioso, capta essa luz, ainda que não se desconfie parte dela,
E me abraça inteira num aperto de mão, enquanto eu quase desmaio de vontade de ser a
cruz suspensa no teu pescoço.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Eu me distraio dos afazeres e ouço displicentemente a tua voz ao longe se queixando..
E revejo como num filme em câmera lenta tuas atitudes duras me repelindo e menosprezando os presentes que te dou e a mim mesma, que faço de mim presente e me oferto pateticamente a ti..
No mais das vezes eu fico lá com o braço estendido sem que você receba me deixando sem saber o que fazer de mim.
É esmagadora essa sua renovada capacidade de me diminuir, de me fazer sentir rejeitada.. eu penso mesmo é que pra você só posso ser presente, quando ausente.
É como a hipermetropia, sabe? Você só me vê bem de longe! De perto eu fico meio borrada, totalmente imperfeita, “incapaz” (como você gosta de dizer antes de qualquer queixa: “você é incapaz de blablabla ”).
Tento seguir em frente sem me abalar demais, enquanto pareço ouvir insistentemente a sua voz na minha cabeça: “não te quero, não te quero, não te quero...”
E para ser muito honesta, quem não quer mais sou eu!
Não quero mais que isso me atinja tão fundo, não quero mais que isso deixe quaisquer marcas em mim..
Queria me tomar nas mãos e dizer, bem altiva: “Eu não te pertenço mais, você não tem mais poder sobre mim” e ir embora..
Mas eu sei que ir embora é ainda uma maneira de cultivar a esperança de que você me queira..

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Ela desaprendeu de dizer as coisas. Não sabia dizer ao certo em que momento isso aconteceu. Só sabia que hoje não conseguia mais. Ainda que ele perguntasse e sinceramente quisesse saber o que se passava lá do lado de dentro. À revelia do esforço enorme que fazia, no mais das vezes só saíam lágrimas em vez de palavras. O curioso é que, por dentro, ela sabia se explicar direitinho! Define-se como ninguém. Examina os sentimentos-pensamentos com cuidado e constância invejáveis; mas se cala. De alguma forma, intuitiva, talvez, ela sabe que isso o deixa de fora e na maior parte do tempo a deixa só... e pensa, na verdade, que desaprendeu foi de confiar nas pessoas. Não é que ela não confie nele, até confia, confia como pode, mas sabe que também nisso é limitada.. e acredita, de alguma maneira torta, que não tem ninguém por ela, e que se quiser alguma coisa vai ter que ir buscar ela mesma.. e é o maior conflito porque ela quer desesperadamente precisar dele, embora, na prática não precise, sabe? .. e ainda que ela não precise, espera por ele. E sonha com coisas simples como ter a própria casa, a própria vida, filhos talvez.. e fica esperando por ele pra ter tudo isso. E é uma merda porque ela gosta de se garantir, e não de esperar, porque quando não vem, quando as expectativas criadas não são satisfeitas é como o mundo se destruindo pelo lado de dentro e ela acha que já passou tanto por isso que cansou, prefere se defender, sabe?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

um pouco de Caio pra alegrar os dias...

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"Te desejo uma fé enorme, em qualquer coisa,
não importa o quê, como aquela fé que a gente teve um dia,
me deseja também uma coisa bem bonita,
uma coisa qualquer maravilhosa,
que me faça acreditar em tudo de novo,
que nos faça acreditar em tudo outra vez."


(CAIO F. ABREU)
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quinta-feira, 2 de julho de 2009

"Ele me perguntou o que eu fazia todo santo dia,
eu lhe contei e ele me disse,
escuto ainda a sua voz, meio zombeteira, meio penalizada,
você vive mal, Helena,
depois declarou que era preciso mudar isso,
que eu devia me decidir a levar uma vida diferente,
me dedicar um pouco mais às alegrias da existência. "

(Milan Kundera - em A Brincadeira)


Cairia como uma luva se ali, em vez de Helena,
houvesse meu nome.
Tá certo que semana que vem eu vou me dedicar um pouco mais às alegrias da existência.
Eu só acho que isso não precisaria ser uma coisa tão drástica,
ou pelo menos, poderia ser uma coisa mais diluída
no meio das rotinas sufocantes
e suas desimportâncias todas...
Não que eu esteja me lamentando...
Na verdade eu tô bem satisfeita, se quer saber...